A vida muda e quase nunca nos damos conta disso. Penso e repenso em tudo que me aconteceu. Ainda olho para minha filha e fico me perguntando se é verdade mesmo, se ela existe, se é real essa minha condição de mãe. É engraçado isso, muitas vezes, me pego pensando que é tudo um sonho e que a felicidade que eu sinto quando estou com ela é mero devaneio e que puf! vai acabar.
Quase nunca nos acostumamos com a felicidade, mesmo porque parece que ela realmente não é desse mundo, impossível ser plenamente feliz com tanta desgraça acontecendo. Hoje, quando abri a janela da sala do meu apartamento, vi um garoto trabalhando na limpeza de vidros dos carros que paravam no farol, ele deveria ter uns 9, 10 anos, estava descalço, magro… uma cena bem cotidiana, com a qual eu já estaria acostumada, morando a tanto tempo em cidades como Campinas, mas eu simplesmente não consegui não me envergonhar por não fazer nada. Olhei para a minha filha, tão bem cuidada, saudável, feliz e pensei que aquele garoto também poderia ter uma mãe e ela poderia estar triste por ter que ver o filho trabalhar para ajudar no sustento da casa.
E eu fiquei triste.
Nem era sobre isso que eu queria escrever, nem era sobre as mazelas do mundo. Era sobre mim. Mas quanto eu penso no que gira em torno do meu umbigo, eu acho que não preciso escrever a toda hora.
O caminho é novo e se faz ao caminharmos.


